Durante muitos anos trabalhei em escola particular. A participação em supervisões com psicólogos e as reuniões com as coordenadoras, cujo objetivo era o estudo pedagógico, sempre apontavam a importância de ouvir o aluno. Além disso, o próprio aluno era responsável por comunicar aos seus pais quaisquer questões envolvendo fatos que teriam como consequência sua suspensão. Em função dessas atividades, a semente da mediação escolar foi plantada na minha trajetória.
Em 2011, tive minha primeira formação em Mediação, baseada na linha transformativa e, nessa época, trabalhava na Educação Infantil com crianças entre 4 e 6 anos de idade.
A criança dessa faixa etária tem muita energia, que é direcionada às atividades motoras e exploratórias do mundo que a cerca. Está aprendendo como funciona o mundo social e, inserindo-se dentro deste universo, está aprendendo a ser um ser social. Seu pensamento é egocêntrico, emite julgamentos sem se preocupar se são verdadeiros ou não, ainda não diferencia o eu e mundo, além de misturar o real e a fantasia. Sendo assim, a estimulação social é fundamental para o desenvolvimento intelectual. A impulsividade e a agressividade fazem parte da natureza humana e, quando deseja alguma coisa, a criança, num primeiro momento, arranca da mão do
colega, ou a empurra: ela utiliza o corpo para se comunicar.
A escola tem um papel fundamental na sociabilidade da criança, pois ela é, junto com a família, um dos agentes socializadores essenciais, um lugar de convivência. Com os pais cada vez mais fora de casa, muitas vezes com comportamentos pouco tolerantes, e com uma programação cultural de músicas, desenhos, novelas, programas de televisão etc., as crianças têm acesso a atitudes agressivas. Cabe à escola apresentar e incentivar outras maneiras de comunicação.
Como a Mediação pode auxiliar nesse processo?
Se o professor, coordenador, diretor e todos os envolvidos no cotidiano escolar assumirem a postura de mediadores, colocando-se inteiramente à disposição dos alunos para auxiliálos no amadurecimento, haverá grande chance de se tornarem responsáveis pelos seus atos.
Também se desenvolverá um fortalecimento da autonomia para resolverem seus conflitos, e poderemos, assim, atingir o objetivo. A tarefa é árdua, depende da mudança de postura herdada da história da educação: “o professor sabe tudo e o aluno não sabe nada”. Na mediação, ao contrário, quem realmente sabe são as pessoas envolvidas no acontecimento em questão e só elas podem fazer acordos sobre a melhor forma de resolver os impasses que satisfaçam ambas as partes. Os alunos passam a ter voz: eles relatam o ocorrido e, com a mediação do adulto, que deve ter atitude de cooperação, perdem o medo, a vergonha e a culpa, que só atrapalham a
comunicação.
Vou contar dois episódios nos quais utilizei a mediação em sala de aula. Ao entrar na sala de crianças de 4 anos que estavam sentadas no chão em uma forma de roda, encontrei uma menina que se encontrava em pé, chorando. Me aproximei e perguntei o que estava acontecendo; ela respondeu que queria sentar-se ao lado da amiga e que esta não deixou. Perguntei o porquê de ela querer sentar-se ao lado da amiga. A resposta foi: porque eu gosto dela. Minha resposta foi: você já disse isso para ela? Ela respondeu que não. Perguntei: e se você falar para ela? Rapidamente se dirigiu à colega que, ao escutar, abriu espaço para que ela se acomodasse ao seu lado.
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Autoras
Elsie Elen Carvalho
Vanessa Aparecida Azevedo Siqueira