O convite para falar sobre o tema da imigração europeia no Brasil na Sessão Comemorativa do 2º. Centenário do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815-2015), na sede do Grémio Literário de Lisboa, deixou-me triplamente honrada: primeiro, por ser uma brasileira a falar num evento do tão renomado Grémio Literário; segundo, por falar do lugar de descendente de imigrantes de uma colônia alemã no sul do Brasil, imigração esta inicialmente motivada no período do Reino Unido; terceiro, por representar as mulheres, a única entre sete homens a proferir suas palestras no evento de comemoração dos cem anos do Reino Unido no Brasil.
Ditas essas palavras introdutórias para marcar minha honrosa presença no evento do Grémio Literário de Lisboa, passo a dizer que questões de cultura, história, nação, língua, errâncias, travessias, margeiam nossa memória, sempre que falamos da constituição do Brasil, fortemente marcada pela colonização europeia – tanto pela própria história do descobrimento – como pela imigração organizada, a qual teve seu marco inicial no período do Reino Unido, em 1815, motivada inicialmente por D. João VI – e posteriormente propagada durante todo o período imperial.
D. João VI, como grande Estadista que foi sentindo a necessidade de uma colonização planejada, a fim de promover e dilatar a civilização do Reino do Brasil, baixou um Decreto que autorizou um agente do Cantão de Friburgo, na Suíça, a estabelecer uma colônia de cem famílias suíças na “Fazendo do Morro Queimado”, nas cercanias do Rio de Janeiro, lugar de características naturais parecidas as de seu país de origem.
Tivemos, assim, o primeiro movimento migratório organizado, levado a cabo pela Coroa Portuguesa no Brasil – durante o Reino Unido. Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, é considerada, portanto, a primeira vaga migratória suíça para o Brasil, habitada por colonos suíços católicos, motivados, na época, pela fome e pela miséria que os assolavam no velho continente, resultantes das guerras. Vieram em busca de terras e melhores condições para sobrevivência, época em que a Europa sofre a escassez de terras e o Brasil mostra-se aberto a tal imigração, por entender que a cultura, a educação e a economia eram virtudes inerentes aos europeus e, assim, o Brasil se desenvolveria mais rapidamente e de forma mais promissora, com as virtudes e valores intrínsecos.
Depois dessa colônia suíça, sucederam-se outras colônias de imigração alemã, das quais citamos: a de Petrópolis, também no Rio de Janeiro; a da Bahia, conhecida como a Colônia Leopoldina; e mais tarde a de Blumenau, em Santa Catarina; e a de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Vale citar que – curiosamente, coincidentemente, ou fatalmente, desta última sou uma das descendentes, da terceira geração nascida no Brasil.
Como pesquisadora, linguista, estudiosa da linguagem e analista de discurso que sou, nosso olhar gira em torno de compreender questões simbólicas e imaginárias que envolvem a identidade e a subjetividade desses sujeitos-imigrantes, por meio de seus relatos em Cartas. Objetivamos analisar suas representações de nação (da que ficou e da que encontraram), suas representações de língua e de cultura, enfim, suas errâncias trazidas do velho mundo e suas inscrições no mundo novo. Essas Cartas – relatos autobiográficos do gênero epistolar –, são por nós compreendidas como escrituras de si, apoiados pelos estudos de Derrida, Foucault, Coracini, Robin.
Artigo escrito por: Acadêmica Beatriz Maria Eckert-Hoff
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